Ossos do Esqueleto



Letra:

Descubra nossas costelas de novo
E fique dentro do nosso peito
Nós só queremos amá-lo
Nós só queremos amá-lo

Descubra o véu do tempo
e nos deixe Te ver a olho nu
Nós só queremos amá-lo

nós queremos seu sangue dentro do nosso corpo
nós quremos seu ar em nossos pulmões
Nós só queremos amá-lo

Ossos do esqueleto em pé diante do som da eternidade
nos lábios do encontrado
e lápides rolam
no ritmo do Seu som
Ossos do esqueleto em pé diante do som da eternidade
nos lábios do encontrado
Então afaste essas portas
E deixe o filho da resssurreição entrar

Adoremos o
Filho da glória encharcado de amor
Abra os portões diante Dele
Coroe-o, Levante-o

Bom dia Quebrantamento!

Cada fase da vida tem suas peculiaridades. Em 2008 completei 30 anos, em 2009 foi a vez da Ju, minha esposa. Saímos para comemorar e, enquanto os meninos se divertiam nos brinquedos, conseguimos conversar sobre algumas destas peculiaridades. Entre um pedaço e outro de pizza, concordamos que a fase dos 30 é um momento de definições, pois apesar de sermos jovens para os idosos e "Tios" para os jovens, é indiscutível a verdade que somos adultos. O corpo não irá mais passar por mudanças revolucionárias. Se estamos acima ou abaixo do peso, não há desculpas, só cabe a nós controlarmos.

Na vida adulta as circunstâncias ficam mais nítidas e o que se tem para fazer não deve ser protelado. Enquanto os jovens normalmente esperam o futuro acontecer e a galera da terceira idade relembra o passado, nós adultos vivemos no tempo que se chama hoje. Mas esta fase nos prega algumas peças, talvez pelo fato de nos sentirmos prontos, aptos e preparados. Podemos ver a vida com total nitidez e também, vez ou outra, nos surpreendermos com uma cegueira aguda, totalmente incapazes de ver nossos próprios erros.

Refletir sobre isso me levou diretamente a um dos mais importantes homens da fé cristã. Paulo, que bem antes de ser o São Paulo, foi também Saulo, um homem vivido, letrado e bem posicionado entre os seus contemporâneos. Alguém que com certeza se considerava maduro, apto e pronto para a vida. Um homem certo de que caminhava na direção correta. Até se ver prostrado diante de uma forte luz questionadora, chamada Jesus. Luz essa que o cegou.

Três dias, sem comer, sem beber e sem ver, para poder enxergar no escuro de sua mente o quanto ele estava cego. Para poder ver o quanto aquele adulto ainda devia crescer. Três dias cego, vendo aquele adulto sendo estraçalhado em sua frente juntamente com todo seu orgulho, vaidade e valor.

Desta forma a Luz, que é o caminho, tem trabalhado na vida de seus seguidores, mostrando o quanto ainda não estamos prontos, o quanto ainda podemos melhorar. Nada de super-crentes avivados ordenando ao céu e ao inferno. Pelo contrário, discípulos acostumados com a rotina do quebrantamento, da humildade e da entrega. Pois quando estamos fracos é que somos fortes e quando estamos cegos, aí então estamos vendo.

Transformai-vos!

A não-resposta de Deus

Há alguns anos ganhei uma luta contra a arrogância. Participava de um processo de seleção de trabalho com outros oito candidatos. Fomos desafiados pela selecionadora a declarar um defeito pessoal. O primeiro candidato declarou altivamente: - Sou perfeccionista em tudo que faço. Os candidatos seguintes consideraram brilhante a sacada e repetiram consecutivamente: - Também sou perfeccionista. Me sentiria um papagaio de pirata ao repetir o mesmo defeito brilhante, por isso optei pela confissão e declarei um grave problema de comunicação interpessoal que carrego. Saí daquela sessão derrotado, porém, para minha surpresa fui selecionado, ganhando a vaga dos perfeccionistas. Foi uma rara exceção, pois infelizmente a arrogância e o olhar altivo são muito apreciados e respeitados nos ambientes corporativos.

O fato é que a arrogância é um distúrbio de posicionamento, em que o indivíduo considera estar em um nível acima do que realmente está. Daí a expressão contemporânea: - O cara se acha! O conceito de posicionamento vem sendo muito falado no universo corporativo, onde uma empresa e sua respectiva marca deve comunicar, de forma clara e objetiva, seu lugar, sua postura e perfil diante de seus clientes, concorrentes, fornecedores e colaboradores. Portanto o posicionamento correto tornou-se uma obsessão. O posicionamento da empresa, o meu, o seu, o nosso como povo, como Estado.

Ao pensar em posicionamento me lembro do livro poético de Jó. Personagem bem conhecido, um homem justo e bem posicionado. Vítima de uma aposta entre o céu e o inferno, tornou-se um pó rastejante, sem bens, sem família e sem honra. E o pior; sem respostas. Após dias e dias na lama da dor, ouvindo bobagens de amigos e do céu apenas um frio e profundo silêncio, a resposta chegou. Como de costume de Deus e de Cristo, veio então traduzida em dezenas de perguntas que não respondem nada, simplesmente posicionam. Posicionam Deus, posicionam o homem.

As perguntas, anti-respostas de Deus, dizem: - Eu estou aqui, veja o meu lugar. Você, está aí e este é o seu lugar. Uma resposta “arrogante” para a nossa cultura que, de maneira errada, entende e prega Deus como uma espécie de Papai-Noel bonzinho, prestes a nos ajudar a qualquer momento. Uma resposta “humilhante” para a nossa época, onde o homem está posicionado no centro de toda a atenção e merecedor de toda a felicidade do cosmos. Com o perdão da palavra: Uma verdadeira cacetada em toda nossa idéia de posicionamento divino e humano atual. Uma não-resposta que nos leva a um reposicionamento do nosso micro tamanho, silenciando todos gemidos de arrogância humana.

Acredito que estamos destruindo o meio-ambiente e a nós mesmos, justamente por nos considerarmos muito para apenas participar da natureza e da vida como participam os outros animais. Acredito que temos nos perdido em nossa fé, justamente por não considerar Deus em toda sua plenitude, tranformando-o em um prestador de serviços para nós mesmos.

Mas como entender um Deus que nos fez tão pequenos, e mesmo assim nos ouve?
Como entender um Deus que está tão alto e também tão perto para nos amar?


Leia a não-resposta de Deus no capítulo 38 de Jó.

E você, me ama?

Cartas de amor costumam ser bem egoístas. Quanto mais sinceras, mais egoístas. Se eu fosse escrever uma hoje, usaria todo meu egoísmo. Como diz o Skank, na sequência bem clichê - Eu preciso de você. Ou o Jota Quest que não economiza em clichês - Hoje eu preciso de você de qualquer jeito. Sem você não sei viver. Eu não sei. Eu não posso. Eu quero, eu sinto, eu desejo você para resolver meu problema, pois com você eu me sinto melhor. Eu, portanto, estou no centro e te preciso em forma e função, para mim. Desta forma desenvolvemos o amor na maioria de nossos relacionamentos.

Acredito, porém, que um dos maiores ensinamentos que podemos levar desta vida é sobre o amor verdadeiro, o amor que é amar. Amar a ponto de não dizer, amar a ponto de entender como Zé Ramalho entendeu, que o único sinônimo de amor é amar. Amor é energia que só existe em ação e movimento e não resiste a teorias e teses. Não tenho o direito de dizer que te amo, se não te acompanho, se não choro contigo, se não divido contigo. Neste caso o máximo que posso te dizer é que, provavelmente, eu poderia te amar.

Em um dos diálogos mais importantes relatado nos Evangelhos, Jesus pergunta a Pedro - Tu me amas? - Sim, mestre! - responde Pedro prontamente. - Tu sabes que eu te amo. Jesus então pede - Apascenta minhas ovelhas. Por mais duas vezes Jesus repete a mesma pergunta ao seu discípulo que acabara de lhe negar três vezes. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, Jesus não estava iniciando uma retaliação. Ele não estava ferido por Pedro negá-lo. Jesus acabara de se sacrificar pelo mundo, sua preocupação não era com sua dor, com sua honra ou orgulho. Sua atenção estava voltada para Pedro, Ele estava curando-o, pois suas próprias feridas já estavam cicatrizadas. Curando a Pedro não para que o pescador vivesse uma vida e amor egoísta, mas para que este pequeno homem curasse a ferida de muitos.

Não havia naquele diálogo o amor egoísta das cartas e canções de amor, mas o amor energia, amor que é amar, se doar, se lançar no meio da voragem, como diz o poeta Gladir Cabral. Amor raro de se encontrar nas igrejas cristãs contemporâneas, onde o Cristo e sua mensagem transformaram-se em forma e função ao serviço de clientes vorazes por resultados e soluções. Amor de cristãos apaixonados por Cristo, loucos por Cristo, mas que o querem só pra si e para suas necessidades. O amor enclausurado dos casais apaixonados, inundado de carinho, mas também sobrecarregado de ciúmes e egocentrismo.

Se Pedro foi o início, a pedra fundamental desta grande construção chamada Igreja Cristã, sem sombra de dúvidas a pergunta de Cristo continua ecoando por séculos e séculos, sendo sussurrada no ouvido de todo cristão autêntico. - Lucas Pedro, tu me amas? - Sim mestre, tu sabes que eu te amo! - Então, mova-se e apascenta meus cordeiros, faça o seu trabalho, distribua o meu amor.

E você, me ama?

PRECE
      
Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.

       Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

       Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

       [...]

       Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

       Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

       Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

Fernando Pessoa em "O Eu Profundo".

Minha fé-borboleta

Encerrei 2008 enfiado em uma crise de fé, não foi a primeira, nem será a última. As vezes me sinto como um caçador de borboletas perseguindo minha fé que, em determinados momentos, voa para longe. Quando me aproximo, lembro que preciso ser cuidadoso, pois ela é frágil. Hesito em agarrá-la, ela voa, então a busca recomeça. Assim iniciei 2009, não fazendo planos, mas pedindo a Deus ajuda para crer Nele.

Nos dias que se passaram, me empenhei em descobrir o que faz minha fé-borboleta voar. Percebi que qualquer problema financeiro recorrente pode levá-la para longe. Com a ajuda de um amigo na hora certa, aqui está ela de volta. Uma bomba atinge uma escola matando e ferindo mais de cem crianças palestinas e lá vai ela alçar vôo novamente. Mas nada afasta mais a fé-borboleta do que ver a igreja cristã ensimesmada em suas atividades internas, alienada aos problemas do mundo real, entretendo fiéis com conteúdo de auto-ajuda egoísta.

No fundo dessa crise, uma heresia rondou minha mente: Talvez Jesus tenha vindo, deixado sua mensagem, morrido e ressucitado, porém o plano não funcionou. A vontade de Deus, inventada, está na boca de muitos, sendo gritada e sussurada nos ouvidos de outros muitos. Neste ponto, quando já havia perdido minha borboleta de vista, me lembrei da enigmática frase de Jesus ao finalizar algumas de suas parábolas: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça! E pergunto: Quem teve ouvidos para ouvir? Quem entendeu sua mensagem? Dos que entenderam, quem praticou? Do que foi distorcido pela história da Igreja, quanto se reformou? Do que se reformou, quanto se praticou?

Creio que a mensagem de Cristo é um código capaz de transformar o homem, por sua vez capacitado para transformar o mundo, como o sal ou a luz. Mas quem no decorrer da história tem executado este código. Ghandi, mesmo sem crer em Jesus como salvador da humanidade, editou a história da Índia executando apenas seu ensinamento sobre tolerância e não-violência. O tal "se alguém lhe bater numa face, ofereça-lhe também a outra". Martin Luther King Jr. editou a história dos EUA usando também este simples ensinamento. Hoje, ao ensiná-lo aos meus jovens alunos de Igreja, recebo sorrisos me dizendo: Isso é loucura, ou pura utopia!

Encerrei minha crise, crendo que ainda engatinhamos como Mundo e como Igreja no que diz respeito a entender e praticar o código de Cristo. Crendo que Sua vontade não está sendo revelada em mentes confusas e má-intencionadas. Sua Santa vontade está registrada em quatro evangelhos que poucos querem ler e menos ainda querem entender. Crendo que mesmo após dois milênios de história, sua mensagem continua sendo ácida e revolucionária demais para aplicarmos em nossos lares e instituições. Crendo assim, me aproximo novamente de minha fé-borboleta, para continuar nesta busca pelo entendimento e pela execução deste código, até que ela voe novamente.

Transformai-vos!

Não tem bicho não?

Vitor, meu filho mais novo, está com 2 anos e 8 meses, poucos meses atrás era só coragem, hoje, o quarto escuro o amedronta. A íncrivel capacidade de imaginar chegou, mas trouxe com ela o impiedoso medo, capaz de criar monstros em sombras de mochilas encostadas na parede, e desenhar nossos vilões tornando-os bem maiores do que na verdade são.

- Não tem bicho pai? – perguntou ele.
- Não tem bicho não! – respondi.
- Não tem não? – insistiu ele.
- Não tem, pode ir.

Este diálogo simples tem sido minha auto-terapia desde então. A cada manhã, a cada novo dia de trabalho, a cada dificuldade familiar, a cada provação. Repito comigo: - Não há bicho nestas sombras, ao menos que eu os crie para o meu próprio sofrer.

Quantas vezes me preparei, me defendi e me armei contra exércitos de inimigos imaginários: Chefes, clientes, companheiros de trabalho, parentes, caixas-de-banco, cobradores, contas, devedores e credores. Tensionei todos os meus músculos físicos e emocionais contra eles, para no fim, sempre me dar conta que são só pessoas, crianças como eu, com medo de sombras em quartos escuros.

Cansei desta brincadeira. Hoje quero brincar no quarto escuro com a mesma tranquilidade do quintal iluminado. Quero acender o quarto pra quem estiver com medo e dizer: – Olha! Não tem nada!

Segundo Leon Tolstoi um homem que carrega os ensinos de Jesus, leva sempre uma lanterna diante de si, a luz está adiante dele, sempre iluminando lugares novos e sempre encorajando-o a ir mais além. Não importa quão escuro esteja ao seu redor.

Pode ir.
Não tem bicho não!